Guia para Pacientes · 2025
Dr. Cesar Augusto Capellari

Bartholinite:
Entenda, Trate,
Recupere-se

Um guia claro e acolhedor sobre cisto e abscesso da glândula de Bartholin — do diagnóstico ao cuidado pós-procedimento

Dr. Cesar Augusto Capellari
Ginecologista e Obstetra · CRM 19990-PR · RQE 15575 / 22515
Capítulo 1

O Que É a Glândula de Bartholin e Por Que Ela Pode Inflamar

Você nunca ouviu falar dela — até o dia em que ela aparece. Entender o que é e por que dói é o primeiro passo para a cura.

As glândulas de Bartholin são duas pequenas estruturas localizadas simetricamente nas posições equivalentes às 4 e 8 horas do relógio, logo abaixo dos pequenos lábios. Cada uma tem o tamanho aproximado de um grão de ervilha e passa completamente despercebida em condições normais.

A função delas é simples e importante: produzir um muco que lubrifica a entrada vaginal, especialmente durante a relação sexual. Esse muco escoa por um ducto (canal) de cerca de 2 a 2,5 cm que desemboca na região vestibular.

Por que o ducto obstrui?

O problema começa quando esse canal fino se fecha — seja por trauma, inflamação, espessamento do muco ou edema. Quando o ducto obstrui, o muco continua sendo produzido mas não tem por onde sair. Ele se acumula, formando o cisto de Bartholin. Se bactérias invadem esse cisto, o líquido se infecta e surge o abscesso, popularmente chamado de bartholinite.

2–3%
das mulheres desenvolvem cisto ou abscesso ao longo da vida
mais frequente o abscesso em relação ao cisto isolado
20–30
anos é a faixa etária mais afetada (mulheres sexualmente ativas)

Vale destacar: o abscesso nem sempre é precedido por um cisto. Na maioria das vezes, a infecção ocorre diretamente no ducto ou na glândula, sem a formação prévia de uma bolsa visível. Por isso, muitas mulheres se surpreendem com a dor intensa que aparece "do nada".

"A bartholinite não tem relação com higiene inadequada — ela acontece em qualquer mulher e não é sinal de descuido."

Complicações sérias: raras, mas possíveis

Sem tratamento adequado, podem ocorrer complicações infrequentes, porém graves: infecção disseminada, sepse e, raramente, fístula retovaginal. Por isso, nunca ignore um abscesso em formação — procure atendimento médico.

Quais bactérias causam a infecção?

Ao contrário do que muita gente acredita, a bartholinite raramente é causada pelas bactérias das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) como gonorreia ou clamídia. Estudos modernos mostram que mais de 80% dos casos são causados por bactérias da própria flora vaginal, em especial:

Importante saber

Mesmo que ISTs sejam investigadas na bartholinite (o que é correto fazer), elas raramente são a causa direta. Isso não elimina a necessidade de avaliação, mas reduz a estigmatização desnecessária da paciente.

Capítulo 2

Como Reconhecer: Sintomas e Diferenças entre Cisto e Abscesso

O cisto e o abscesso são condições relacionadas, mas com apresentações muito diferentes. Conhecer os sinais ajuda você a buscar ajuda no momento certo.

🫧 Cisto de Bartholin

  • Caroço macio e indolor (ou levemente desconfortável)
  • Localizado na parte posterior dos pequenos lábios
  • Geralmente unilateral (um lado só)
  • Aparece gradualmente
  • Pequenos cistos: sem sintomas
  • Cistos maiores: sensação de pressão, desconforto ao sentar ou caminhar

🔥 Bartholinite (Abscesso)

  • Dor intensa, pulsátil, que piora ao sentar e caminhar
  • Caroço quente, vermelho e muito sensível ao toque
  • Inchaço que pode crescer rapidamente em horas
  • Dificuldade para sentar, caminhar ou ter relações
  • Febre (nem sempre presente)
  • Saída espontânea de pus em alguns casos

⚠️ Quando procurar atendimento imediato

Se houver febre acima de 38°C, calafrios, mal-estar geral intenso, vermelhidão que se espalha para além da região do caroço ou dor insuportável — procure atendimento médico urgente. Esses sinais podem indicar infecção mais grave que se alastra para os tecidos vizinhos (celulite pélvica).

Uma observação importante sobre o timing: o abscesso normalmente se desenvolve em 2 a 4 dias após os primeiros sintomas. Portanto, mesmo que a dor seja suportável no início, não postergue a consulta — o quadro tende a piorar sem tratamento.

Não é só "um gânglio" ou "um ingurço"

Muitas pacientes chegam ao consultório tendo confundido a bartholinite com linfonodos inflamados ou um "ingurço". A localização específica (parte posterior, lateral da vagina) e a consistência flutuante do caroço são características que diferenciam a bartholinite de outras condições — mas apenas o exame médico confirma o diagnóstico.

Capítulo 3

Como o Diagnóstico É Feito

O diagnóstico é clínico — ou seja, feito pelo exame físico. Sem exames de sangue complicados, sem procedimentos dolorosos: a consulta já traz as respostas.

Na consulta, o médico realizará uma inspeção e palpação da região vulvar. A localização característica da glândula, combinada com os sintomas relatados pela paciente, é suficiente para confirmar o diagnóstico na grande maioria dos casos.

Mulheres acima de 40 anos: atenção especial

Embora o câncer da glândula de Bartholin seja extremamente raro, ele ocorre predominantemente após os 40 anos. Por isso, nessa faixa etária, massas nessa localização devem sempre ser avaliadas com mais cuidado, podendo requerer biópsia para confirmação diagnóstica antes ou durante o tratamento.

Capítulo 4

Opções de Tratamento: Da Conduta Conservadora à Cirurgia

Existem várias formas de tratar. A escolha depende do tamanho, dos sintomas e do histórico de recorrências. O médico vai indicar a melhor para o seu caso.

Conduta Conservadora

Para cistos pequenos e sem sintomas, a orientação atual é não intervir. Muitos cistos regridem espontaneamente ou permanecem estáveis por anos sem causar problemas. Banhos de assento com água morna podem ajudar a aliviar o desconforto e favorecer a drenagem natural.

Procedimentos Cirúrgicos

Para cistos grandes e sintomáticos, ou para abscessos (bartholinite), o tratamento é sempre cirúrgico. Veja as principais opções:

⚠️ Maior risco de recorrência
Punção aspirativa simples — alto risco de recorrência e reinfecção
Drenagem por incisão sem fistulização — risco aumentado de recidiva
✅ Procedimentos recomendados
Técnica Indicação
Cateter de Word 1ª linha ambulatorial
Marsupialização Eficácia equivalente
Anel de Jacobi Alta satisfação
Bisturi + fistulização Recomendado
O que diz a revisão sistemática mais recente (BJOG 2020)

A revisão de Illingworth et al. (BJOG 2020), baseada em 8 ensaios clínicos com 699 mulheres, concluiu que nenhuma técnica cirúrgica isolada tem superioridade comprovada sobre as demais em termos de recorrência. A escolha deve considerar a preferência da paciente, a disponibilidade do recurso e a experiência do médico. O cateter de Word é recomendado como primeira linha ambulatorial por dispensar anestesia geral e internação. As taxas de recorrência na literatura variam de 2,7% a 17,4%.

Como Funciona a Fistulização (Anel de Jacobi)

A fistulização é a abordagem mais utilizada atualmente porque cria uma nova via de drenagem permanente para a glândula, evitando a recorrência. O Anel de Jacobi é a técnica preferida no Brasil, pois pode ser facilmente confeccionado com materiais disponíveis em qualquer centro cirúrgico.

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Posicionamento e antissepsia

A paciente é posicionada na mesa ginecológica e a região perineal é higienizada com solução antisséptica (ex.: iodopovidona).

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Anestesia local

A área ao redor do cisto/abscesso é anestesiada com lidocaína 1–2%. A injeção é feita no tecido subdérmico — não dentro do cisto — para evitar drenagem prematura e maior desconforto.

3
Incisão e drenagem

Uma incisão de 3 a 5 mm é feita na região da linha de Hart (entre a carúncula himenal e a pele) usando lâmina nº 11 ou nº 15. A glândula é drenada e irrigada com soro fisiológico até saída de conteúdo claro.

4
Posicionamento do Anel de Jacobi

Uma segunda incisão menor é feita acima da primeira. O anel — um pequeno tubo de cânula tipo butterfly com fio de sutura passando pelo lúmen — é posicionado de forma a criar um canal aberto entre as duas incisões.

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Formação da fístula

As extremidades do fio são amarradas formando o anel fechado. Ele permanece no local por 2 a 4 semanas, tempo necessário para a epitelização completa do canal — ou seja, para que o "novo buraco" cicatrize com pele por dentro, mantendo-se aberto permanentemente.

Cateter de Word vs. Marsupialização: o que esperar

Estudos mostram que mulheres submetidas ao cateter de Word relatam maior intensidade de dor no primeiro dia pós-procedimento em comparação à marsupialização. A partir do 3º dia, essa diferença não é clinicamente relevante. Converse com seu médico sobre analgesia adequada para as primeiras 24 horas.

Marsupialização

Na marsupialização, o cisto é aberto e suas bordas são suturadas à pele circundante, criando uma abertura permanente. Geralmente realizada em centro cirúrgico, oferece boa resolução e baixas taxas de recorrência — comparáveis ao cateter de Word conforme os ensaios clínicos disponíveis.

Outras Opções

Quando é indicada a bartholinectomia (remoção da glândula)?

Casos em que pode ser indicada a cirurgia de remoção

A remoção completa da glândula é reservada para situações específicas: casos de recorrência frequente mesmo após múltiplos procedimentos de fistulização, ou quando há suspeita de malignidade (mulheres acima de 40 anos com lesão endurecida, fixa ou de aspecto atípico). É uma cirurgia com maior complexidade e recuperação mais longa.

E os antibióticos?

Esta é uma dúvida muito comum. A resposta atual da medicina é: nem sempre são necessários. A drenagem, por si só, é suficiente para resolver a maioria dos casos de bartholinite. O antibiótico é indicado apenas quando há:

Antibióticos: quando e como

Quando indicado, o ideal é que o antibiótico seja direcionado pela cultura da secreção coletada durante a drenagem. O uso empírico (sem cultura) pode não cobrir os patógenos reais — que variam conforme características individuais da paciente. A drenagem completa da cavidade é, por si só, a medida mais eficaz para reduzir recorrências e prevenir sepse pós-operatória.

Capítulo 5

Cuidados Após o Procedimento

A recuperação depende muito do cuidado que você tem em casa. Siga as orientações do seu médico — elas são específicas para o seu caso.

Higiene da roupa íntima

A calcinha é o item de roupa que mais influencia a saúde genital. Na região em recuperação, a escolha correta do material é ainda mais importante:

✅ O que fazer

  • Use calcinha 100% algodão — em toda a peça, não apenas o "forrinho"
  • Prefira cores claras (branco ou tons suaves)
  • Lave à mão com sabão de coco líquido e enxague muito bem
  • Seque ao sol ou em local bem ventilado
  • Passe a ferro quente (elimina microorganismos)
  • Guarde em gaveta exclusiva, sem outras peças

🚫 O que evitar

  • Tecidos sintéticos (nylon, poliéster) — impedem a ventilação
  • Cores escuras com corantes que irritam a pele sensível
  • Amaciante, alvejante ou deixar de molho
  • Secar no banheiro — umidade favorece fungos
  • Naftalina ou sachês perfumados na gaveta
  • Compartilhar calcinhas com outras pessoas

Higiene da região íntima

Após qualquer procedimento na glândula de Bartholin, a limpeza da região deve ser cuidadosa e gentil:

1
Use papel higiênico branco e neutro

Papel colorido ou perfumado pode causar irritações. Sempre utilize da frente para trás — nunca o contrário, para evitar contaminação com bactérias fecais.

2
Após evacuar: higiene com água e sabonete neutro

Lave com água e sabonete neutro a região perineal e perianal externamente. Esse hábito reduz drasticamente o risco de contaminação da ferida cirúrgica.

3
Sabonete íntimo com pH 5,0 a 6,0

Escolha produto sem perfume, incolor e em versão líquida, para uso externo. Aplique com movimentos suaves e gentis. Não force nem esfregue a região do procedimento.

4
Para coceira ou desconforto: compressas naturais

Prepare 2 litros de chá de camomila fria (flor natural, sem adoçar) e aplique compressas por 10 minutos, 1 a 2 vezes ao dia. Ou dilua 4 colheres de sopa de bicarbonato de sódio em 2 litros de água filtrada fria e aplique com borrifador.

⛔ Duchas vaginais: proibidas

A ducha vaginal remove mecanicamente os lactobacilos protetores e pode carregar bactérias até o útero e as trompas. Após um procedimento na glândula de Bartholin, isso é especialmente perigoso. Se houver mau cheiro ou corrimento diferente, comunique seu médico imediatamente — nunca tente resolver sozinha com ducha.

Orientações por tipo de procedimento

Procedimento Cuidados específicos
Drenagem simples / incisão Repouso relativo nas primeiras 24–48 horas. Higiene local suave conforme orientação. Analgésico conforme prescrição médica.
Anel de Jacobi (fistulização) O anel permanece 2–4 semanas. Não tente removê-lo sozinha. Higiene local suave com água e sabonete neutro. Sem relação sexual até a retirada.
Marsupialização Curativo conforme orientação cirúrgica. Cicatrização leva 2–6 semanas. Evite roupas íntimas apertadas. Retorno programado obrigatório.
Bartholinectomia (remoção) Recuperação mais longa (2–4 semanas). Edema e equimose são normais. Atividade física e relação sexual apenas após liberação médica.

Sinais de alerta: quando retornar ao médico

⚠️ Procure seu médico imediatamente se houver:

Febre acima de 38°C · Piora progressiva da dor · Saída de pus com odor intenso · Vermelhidão ou inchaço crescendo ao redor da ferida · Deiscência da sutura (ponto abrindo) · Saída ou deslocamento do Anel de Jacobi antes do prazo · Qualquer alteração que cause preocupação

Sobre a automedicação

Nunca use cremes, pomadas ou medicamentos vaginais sem prescrição médica durante a recuperação. O tratamento correto depende do diagnóstico adequado — o que funcionou para outra pessoa pode atrasar a sua cicatrização ou piorar o quadro.

Capítulo 6

Perguntas Frequentes

As dúvidas que mais chegam ao consultório — respondidas de forma clara e sem rodeios.

A bartholinite tem relação com falta de higiene?

Não. A obstrução do ducto pode acontecer em qualquer mulher, independentemente dos hábitos de higiene. A causa mais comum é simplesmente a obstrução mecânica do canal, que é muito fino. Evite o excesso de higiene ou uso de produtos agressivos, pois eles podem alterar a flora vaginal e aumentar o risco de infecções.

Posso ter relações sexuais com bartholinite?

Não é recomendado. A região estará inflamada e dolorosa, e a relação pode piorar o quadro, aumentar o risco de ruptura do abscesso ou facilitar a contaminação. Após o tratamento e a cicatrização, a vida sexual normal é retomada sem restrições.

O procedimento dói muito?

Com anestesia local adequada, o desconforto durante o procedimento é mínimo. A fase mais dolorosa geralmente é antes do tratamento, quando o abscesso está no auge. Após a drenagem, há alívio imediato e expressivo da pressão e da dor — muitas pacientes descrevem como "tirar um peso".

Vou precisar ficar internada?

Na grande maioria dos casos, não. A fistulização com anel de Jacobi e a drenagem simples são procedimentos ambulatoriais — feitos no consultório ou em pequeno centro cirúrgico, com alta no mesmo dia. A internação é reservada para casos com infecção grave, sinais sistêmicos intensos ou quando é necessária anestesia geral.

Se eu remover a glândula, vou perder a lubrificação?

A glândula de Bartholin contribui com apenas uma pequena parte da lubrificação vaginal. A maior parte vem da própria parede vaginal e do colo do útero. Na prática, a maioria das mulheres submetidas à bartholinectomia não percebe diferença significativa na lubrificação.

O procedimento afeta a fertilidade?

Não. A glândula de Bartholin não tem nenhuma função relacionada à fertilidade ou ao funcionamento do útero e dos ovários. O tratamento — seja a drenagem, a fistulização ou a remoção — não interfere na capacidade de engravidar.

Como prevenir a recorrência?

Não existe uma forma garantida de prevenir, pois a obstrução do ducto pode acontecer espontaneamente. O que ajuda: manter higiene adequada (sem excessos), usar roupas íntimas de algodão, evitar traumas locais repetitivos e realizar o tratamento definitivo (fistulização) em vez de apenas drenar. Em casos de recorrências frequentes, a marsupialização ou a bartholinectomia podem ser a solução definitiva.

"Você não precisa conviver com dor ou com medo. Existe tratamento eficaz e a recuperação é rápida quando bem conduzida."

Clínica Femme de Ginecologia e Obstetrícia · São José dos Pinhais — PR

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📚 Referência científica principal
Illingworth BJG, Stocking K, Showell M, Kirk E, Duffy JMN. Evaluation of treatments for Bartholin's cyst or abscess: a systematic review. BJOG. 2020;127:671–678.
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