Guia para Pacientes · Saúde Íntima
Entenda o que é, por que acontece, como tratar — e como evitar que volte.
Dr. Cesar Augusto Capellari
CRM 19990-PR | RQE 15575 / 22515
Ginecologista e Obstetra
Capítulo 01
A vaginose bacteriana (VB) é o desequilíbrio mais comum da flora vaginal em mulheres em idade reprodutiva. Ela não é uma infecção clássica causada por um único germe, mas sim uma alteração do ecossistema vaginal: as bactérias protetoras (Lactobacillus) diminuem e bactérias anaeróbicas variadas passam a predominar.
Lactobacillus — o guarda da saúde vaginal: Em uma vagina saudável, os Lactobacillus produzem ácido lático, mantendo o pH baixo (≤4,5) e protegendo contra microrganismos indesejados. Quando essa população diminui, o equilíbrio se rompe.
As principais bactérias encontradas na VB incluem Gardnerella vaginalis, Prevotella spp., Mobiluncus spp., Mycoplasma hominis e Sneathia spp.. Juntas, formam um biofilme denso nas paredes vaginais — o que dificulta o tratamento e favorece a recorrência.
Capítulo 02
Muitas mulheres com VB não apresentam sintoma algum. Quando ocorrem, os sinais mais frequentes são:
⚠️ Atenção: Não tente se autodiagnosticar. Conteúdo vaginal alterado pode ter várias causas. Somente um exame médico com análise laboratorial permite distinguir VB de candidíase, tricomoníase ou outras condições.
O diagnóstico é clínico e laboratorial, usando os Critérios de Amsel — que avaliam quatro características — e/ou a Pontuação de Nugent, que analisa a flora bacteriana ao microscópio. O diagnóstico confirma-se com pelo menos 3 dos 4 critérios de Amsel presentes:
| Critério de Amsel | O que significa |
|---|---|
| 1. Conteúdo vaginal típico | Branco-acinzentado, homogêneo |
| 2. pH vaginal > 4,5 | Ambiente menos ácido que o normal |
| 3. Teste das aminas positivo | Odor de "peixe" ao adicionar KOH à amostra |
| 4. "Clue cells" ao microscópio | Células epiteliais cobertas por bactérias (≥20%) |
Capítulo 03
Não existe uma causa única. A vaginose bacteriana resulta de uma combinação de fatores que perturbam o equilíbrio natural da flora vaginal. Estudos recentes mostram que fatores sexuais e o método contraceptivo influenciam diretamente o risco.
Mulheres com parceiras femininas têm até 1,7 vez mais chance de desenvolver VB — o que reforça o papel da transmissão sexual no desequilíbrio da flora vaginal.
Sutton et al., Sex Transm Infect 2026Reduz em 27% o risco de VB. O estrogênio estimula a produção de glicogênio — "alimento" dos Lactobacillus.
O uso correto e consistente do preservativo protege a flora vaginal e reduz a exposição a bactérias externas.
Capítulo 04
A VB não tratada — mesmo sem sintomas — pode levar a complicações sérias. É por isso que o diagnóstico e o tratamento precoces importam.
Capítulo 05
O tratamento da VB é eficaz na maioria dos casos. Os antibióticos de primeira linha eliminam as bactérias anaeróbias. O desafio é prevenir a recorrência, que é comum.
Sobre probióticos: Meta-análises recentes mostram que a adição de probióticos com Lactobacillus ao antibiótico melhora a taxa de cura em comparação ao antibiótico isolado (RR 1,23). O uso oral foi mais eficaz que o vaginal. Pergunte ao seu médico se essa combinação é indicada para você.
Esta é uma das questões mais recentes e importantes no manejo da VB. Em 2025 e 2026, duas publicações científicas de alto impacto mudaram a conduta clínica:
Tratar o parceiro masculino com antibióticos (oral + tópico peniano) reduziu a recorrência da VB de 63% para 35% em apenas 12 semanas.
Vodstrcil et al., N Engl J Med 2025 — confirmado pela ISSVD 2026A Sociedade Internacional para o Estudo de Doenças Vulvovaginais (ISSVD) atualizou suas recomendações em 2026: o tratamento da parceria masculina deve ser considerado nos casos de VB recorrente e sintomática, com diagnóstico confirmado laboratorialmente.
| Critério | Detalhe |
|---|---|
| VB confirmada laboratorialmente | Microscopia, Gram ou PCR validado |
| VB sintomática | Sintomas ativos na mulher |
| 3+ episódios confirmados em 12 meses | Padrão recorrente bem estabelecido |
| Recorrência em <3 meses após tratamento correto | Indicativo de reinfecção |
| Exclusão de tricomoníase associada | Teste NAAT negativo |
Tratamento da parceria masculina (ISSVD 2026): Combina um antibiótico oral com um antibiótico tópico de uso peniano, ambos por 7 dias, iniciados ao mesmo tempo pela mulher e pelo parceiro. Relações sexuais devem ser evitadas durante o tratamento. O seu médico indicará o esquema correto.
Para parcerias femininas, a ISSVD recomenda que seja feita testagem para VB e, se positivo, tratamento simultâneo com um dos esquemas de primeira linha, seguido por regime semanal de manutenção.
Capítulo 06
A recorrência é o grande desafio da VB. Mesmo com tratamento correto, até 50-60% das mulheres têm um novo episódio em 6 a 9 meses. Entender o porquê ajuda a prevenir.
As bactérias não foram completamente eliminadas. O biofilme vaginal protege os germes do antibiótico, permitindo que a VB se mantenha.
A VB foi curada, mas a mulher foi reexposta às bactérias — frequentemente por meio de relação sexual com parceria não tratada.
Probióticos vaginais com L. crispatus: Estudos recentes (Lactin-V e VS-01) mostraram que formulações vaginais de Lactobacillus crispatus após o tratamento reduziram significativamente a recorrência. Essas formulações estão em fase avançada de desenvolvimento e podem mudar a prática clínica nos próximos anos.
Capítulo 07
Não existe fórmula mágica, mas adotar hábitos simples reduz significativamente o risco de novos episódios:
VB na gravidez: Se você está grávida ou planeja engravidar, informe ao seu médico sobre histórico de VB. O rastreamento e tratamento durante o pré-natal são importantes para reduzir o risco de parto prematuro e outras complicações.
CRM 19990-PR | RQE 15575 / 22515
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