Entenda a
(SGUM) — o que muda no corpo, por que afeta a vida sexual e urinária, e o que a ciência mais recente diz sobre tratamento.
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Capítulo 1
A Síndrome Geniturinária da Menopausa (SGUM) é o nome atual, adotado internacionalmente, para o conjunto de mudanças que acontecem na vulva, na vagina, na uretra e na bexiga quando os níveis de estrogênio — e também de testosterona — caem, seja na menopausa, seja em outras fases da vida em que esses hormônios diminuem.
Esse termo substituiu a antiga expressão "atrofia vulvovaginal", porque a condição vai além da vagina: ela envolve três frentes ao mesmo tempo — genital, sexual e urinária — que costumam aparecer juntas e se influenciam mutuamente.
Ressecamento, ardência, coceira, irritação e alteração do conteúdo vaginal.
Dor durante a relação (dispareunia), menos lubrificação, menos desejo e dificuldade para atingir o orgasmo.
Urgência, aumento da frequência, ardência ao urinar e infecções urinárias que se repetem.
A SGUM é crônica e progressiva: ao contrário dos fogachos, ela não tende a melhorar sozinha com o tempo — pelo contrário, sem tratamento, costuma piorar.
Capítulo 2
Estudos internacionais mostram que a SGUM é muito mais frequente do que se imagina — e também muito mais silenciada, porque envolve assuntos que as mulheres nem sempre sentem à vontade para trazer à consulta.
A intensidade varia muito de mulher para mulher — não existe "o normal" nessa fase, existe o que incomoda ou não incomoda cada pessoa. É esse incômodo, e não apenas o que se vê num exame, que deve guiar a decisão de tratar.
Capítulo 3
Durante a formação do bebê ainda no útero, os órgãos genitais e as vias urinárias se desenvolvem a partir da mesma estrutura embrionária. Por isso, o mesmo hormônio que mantém a vagina saudável também mantém a bexiga e a uretra saudáveis — e por isso os sintomas dessas três áreas costumam andar juntos.
O estrogênio mantém os tecidos espessos, bem irrigados por vasos sanguíneos, lubrificados e cobertos por uma camada protetora de lactobacilos — bactérias "do bem" que mantêm o ambiente ácido e afastam bactérias causadoras de infecção. Quando o estrogênio cai, essa proteção se perde: a mucosa fica mais fina, mais seca, menos elástica e mais vulnerável a fissuras e infecções.
A testosterona também tem um papel nessa história — ela ajuda a manter o crescimento celular, a irrigação sanguínea e a sensibilidade nervosa da região. É por isso que os tratamentos mais recentes não olham só para o estrogênio.
Capítulo 4
A dor durante a relação sexual costuma ser o sintoma que mais afeta a qualidade de vida. Ela pode gerar um ciclo difícil de romper: a dor gera medo da próxima relação, o medo gera tensão da musculatura pélvica, e essa tensão gera ainda mais dor.
Nenhuma mulher precisa "aceitar" esse quadro como parte inevitável do envelhecimento. Existe tratamento eficaz, e falar sobre isso com o ginecologista é o primeiro passo — mulheres que conversam abertamente sobre o tema têm o dobro de chance de receber um tratamento adequado.
Capítulo 5
A boa notícia é que o diagnóstico da SGUM é clínico: baseado no que a paciente relata, não em exames complexos ou dosagens hormonais. O médico investiga os sintomas através de uma conversa estruturada e, se necessário, de um exame físico simples.
Ressecamento, dor, ardência, urgência urinária, infecções recorrentes — tudo conta.
Pode mostrar palidez, perda de elasticidade ou pequenas fissuras na mucosa — mas nem sempre é obrigatório para iniciar o tratamento.
Sintomas parecidos podem ter outras origens (infecções, dermatoses, tensão da musculatura pélvica), por isso a avaliação individualizada importa.
Capítulo 6
As diretrizes internacionais mais recentes recomendam começar pelo mais simples e avançar apenas se for necessário. Não existe um único tratamento certo para todas — a escolha depende dos sintomas, das preferências e do histórico de cada mulher.
De uso regular (hidratantes) ou no momento da relação (lubrificantes). Não têm hormônio e costumam ser o primeiro passo, com boa evidência para o ressecamento.
Estrogênio vaginal em dose baixa, agindo praticamente só na região, quando os hidratantes não são suficientes.
Existem outras opções hormonais locais e orais aprovadas, com mecanismos diferentes, para quem não pode ou não quer usar estrogênio.
Recomendada em conjunto com o tratamento, especialmente quando há tensão da musculatura do assoalho pélvico associada.
Sobre lasers e radiofrequência: apesar de populares, os estudos clínicos randomizados e controlados por placebo mais rigorosos não mostraram diferença consistente frente ao tratamento simulado (placebo). Sociedades médicas como o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists não recomendam o uso rotineiro desses aparelhos para SGUM fora de estudos clínicos.
Capítulo 7
Chamamos de infecção urinária de repetição duas infecções em até seis meses, ou três ou mais em um ano — um padrão comum na perimenopausa e na pós-menopausa, ligado à queda do estrogênio local.
Um estudo de 2026, publicado na revista Urology e baseado em quase 1,9 milhão de mulheres, observou que aquelas que usaram estrogênio vaginal logo após o diagnóstico de infecção de repetição tiveram menos internações, menos casos de sepse e menos óbitos nos anos seguintes, em todas as faixas etárias.
Importante: esse é um estudo observacional — mostra uma associação forte, não uma prova isolada de causa e efeito, já que parte do resultado pode refletir também um acompanhamento médico mais atento nessas pacientes. Ainda assim, o achado reforça o que diretrizes internacionais já recomendavam: em mulheres com infecção urinária de repetição, o estrogênio vaginal local deve ser considerado para reduzir o risco de novas infecções.
Capítulo 8
Vale a honestidade: uma revisão sistemática independente publicada em 2024, uma das mais rigorosas já feitas sobre o tema, avaliou dezenas de estudos clínicos e concluiu que a certeza da evidência para a maioria dos tratamentos de SGUM — incluindo o estrogênio vaginal — é baixa a muito baixa.
Isso não significa que os tratamentos não funcionem. Significa que os efeitos observados nos estudos, embora reais, costumam ser modestos, e que ainda faltam pesquisas de longo prazo e comparações diretas entre diferentes opções.
Por isso o acompanhamento é tão importante: o tratamento certo é aquele que, na prática, melhora os sintomas daquela paciente — e isso só se sabe reavaliando em consulta, não apenas seguindo uma recomendação genérica.
Capítulo 9
A SGUM é particularmente frequente e intensa em mulheres tratadas de câncer de mama — estima-se que até 70% apresentem sintomas, muitas vezes agravados pelos tratamentos hormonais usados no combate ao câncer (como inibidores de aromatase).
Nessas pacientes, a conduta é diferente: o tratamento começa sempre pelas opções não-hormonais (hidratantes, lubrificantes, fisioterapia pélvica). Qualquer opção hormonal local só deve ser considerada em conjunto com o oncologista responsável, avaliando o tipo de tumor, o tratamento em curso e o risco individual.
Estudos observacionais de longo prazo, incluindo grandes registros dinamarqueses e britânicos, não encontraram aumento consistente no risco de recidiva com o uso de estrogênio vaginal em baixa dose — mas os próprios autores reforçam que os dados ainda são limitados, especialmente em mulheres usando certos inibidores hormonais. É uma decisão que deve ser sempre compartilhada e individualizada.
Capítulo 10
Ressecamento, dor, urgência urinária, infecções — anote o que sente e há quanto tempo.
O diagnóstico é clínico — não precisa de exames complexos para começar a conversa.
Do mais simples ao mais específico, sempre considerando seu histórico e preferências.
Sintomas voltam de 1 a 3 meses após parar o tratamento eficaz — por isso o acompanhamento contínuo importa.
Procure atendimento com urgência se tiver febre, dor lombar intensa ou mal-estar importante junto com sintomas urinários — sinais de alerta que exigem avaliação imediata.